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terça-feira, 4 de junho de 2013

Conto: “ O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade” – 3ª Parte – Final






Já tinha entrado nas portas da cidade quando percebeu que algo havia acontecido. As pessoas reuniam-se em grupinhos, murmurando ou até vozeando com vivacidade. Mais preocupado ficou quando viu Shabnan vir ao seu encontro, rodeada de alguns escravos.

- Adolfo foi capturado e vai ser apresentado num leilão de escravos. – Comunicou Shabnan a meia voz e antes que Ivanoel perguntasse o porquê, ela informou que o rumor da sua condição feminina e masculina se espalhara e como escravo ele valia uma fortuna. Sobressaltado, correu para a tenda gigante no centro da cidade, onde decorriam os leilões de escravos.

Naquele momento ainda licitavam Adolfo e as ofertas eram absurdamente altas. Ivanoel jamais poderia acompanhar ou travar tais paradas.

Tentou dissuadir os mercadores mas estes afastavam-no rudemente. Num ponto estratégico viu o Sultão do reino vizinho e o seu grande séquito, ricamente trajados. Tentou chegar-lhe e pedir-lhe clemência mas foi barrado e até expulso da tenda.

Adolfo acabou por ser comprado pelo dito sultão.

O moreno cavaleiro regressou a casa de Navid e este e Shabnan esperavam-no.

- Nada podeis contra o Sultão, caro amigo Ivanoel. – Garantiu Navid – Mas talvez Shabnan vos possa ajudar.

Esta retirou-se por minutos para os seus aposentos e surgiu com duas moedas de ouro pequenas.

- Levai estas moedas e colocai uma na boca – Informou a formosíssima mulher – Ficareis invisível e podereis entrar no palácio do Sultão e procurar Adolfo.

Ivanoel assim fez, cavalgou até ao reino vizinho e facilmente entrou no palácio do Sultão sorrateiramente. Procurou-o nas masmorras sem sucesso. Percorreu algumas partes do palácio sem o encontrar. Então lembrou-se. Procurou na ala das mulheres e acabou por descobrir Aegle ricamente trajada, sobre um leito. Parecia calma mas com vestígios de lágrimas no seu rosto. O cavaleiro acercou-se dos véus de musselina que circundavam a alcova e tirou a moeda da boca. Os olhos de Aegle brilharam ao ver Ivanoel. Este instou-a ao silêncio e deu-lhe a moeda explicando-lhe tudo num sussurro. Meia hora depois estavam fora do palácio. Chegaram às portas da cidade e à casa de Navid antes de amanhecer.

Shabnan aguardava-os ansiosa. Após as congratulações, ela perguntou pela Pedra e Ivanoel mostrou-a contando o que dissera o Guardião da Pedra. Aegle tomou-a nas mãos e afagou-a tristemente. Inesperadamente viu-se uma luz cintilante e surgiu um ancião muito semelhante ao Guardião que Ivanoel vira. O ancião sorriu bondosamente para todos e olhando para Ivanoel dirigiu-se-lhe com indulgência:

- Meu filho, vejo que já experienciaste mais aventuras após vos terdes despedido de mim. A Pedra da Felicidade é activada pelo Amor, como sabeis. Chegou a hora de escolherdes com o coração. Chegou a hora do resgate desta Graciosa Dama. Caso Aegle se torne mulher, o vosso amigo Adolfo desaparecerá para sempre mas Aegle terá uma oportunidade de ser feliz.

Ivanoel hesitou, balbuciando:

- Adoro Adolfo…Meu Amigo... Companheiro de Armas como nunca tive… Dói-me perdê-lo… Não posso escolher…O meu sentimento vai para Shabnan… no entanto… não desejo prejudicar esta dama que já passou por muito…

-Pois, eu escolho ficar para sempre como Adolfo! – Interrompeu Aegle com intensidade. – A vida sorri-me mais como cavaleiro e como vivo só, é-me mais vantajoso ficar assim… E assim também não perdereis o vosso amigo…

- Nobre Dama, não cometais tal desvario! – Exclamou Ivanoel protestando alvoroçado mas sem no entanto conseguir dissuadir Aegle.- Não o façais por minha causa!

- Não, Cavaleiro! Faço-o por minha!

Então o ancião sorriu de forma indulgente e proferiu em tom firme:

- Que se faça consoante a vossa vontade, minha filha!

E naquele momento Aegle ficou transformada em Adolfo para sempre.





Ivanoel pedira Shabnan em casamento e os preparativos já tinham arrancado. Adolfo mostrava-se seu amigo fiel e, fora algumas sombras de tristeza no olhar, parecia aceitar o destino com resignação e coragem. Afastara-se discretamente do convívio com Shabnan e no presente momento as mulheres mal se falavam ou olhavam.

Ivanoel às vezes mirava-o disfarçadamente, sondando o estado de espírito do franzino cavaleiro, porém também observando a sua figura frágil mas masculina. Preocupava-se com o amigo e ao mesmo tempo sentia-se estranho pois a existência de Adolfo de facto parecia ilusória e a pessoa que ele encarava era uma mulher na realidade.

- Porque me olhais? Acaso não vos pareço autêntico? – Adolfo parecia adivinhar os pensamentos do amigo.

- Isto é demasiado confuso para mim. Sempre adorei Adolfo, mas agora… Sempre que vos olho sei que está aí uma mulher… e tudo fica confuso.

- Sou vosso Amigo. – Frisou Adolfo- O resto perde-se nas brumas do passado.

Ivanoel suspirou e abanou a cabeça como que para afastar dúvidas. – Muito bem, Cavaleiro Adolfo, bebamos então como dois bons comparsas.

E assim tentaram manter um clima ameno até ao dia do casamento. As bodas celebraram-se com grande fausto. Tanto Shabnan como Ivanoel trajaram maravilhosas vestimentas de brocado e seda. Grandes festejos tiveram lugar, onde foram servidas opíparas iguarias.

Adolfo olhava distraidamente para as bailarinas quase desnudas que o tentavam seduzir. Sentia-se um pouco ébrio. No entanto o roçagar das musselinas na sua cintura fê-lo despertar. Era tarde e aquele era o sinal que lhe mostrava que estava na hora de se retirar.

Adolfo não tinha reparado que Shabnan e Ivanoel se tinham retirado há algum tempo. Fizera por não reparar nisso. Sentia o seu coração seco, onde a dor já nem sequer ressoava.

De repente ouviu um rumor vindo dos aposentos nupciais. Escapuliu-se para trás de uma gelosia, escutando.





Meia hora antes os recém-casados haviam-se retirado para os seus novos aposentos. Namoriscavam em cima da alcova entre risos e sussurros e Ivanoel brincava com as jóias da sua nova esposa, dispersando-as pelo corpo de Shabnan. Esta, a certa altura, pediu-lhe para usar a Pedra da Felicidade. O cavaleiro fitou-a um pouco surpreso mas acedeu. Levantou-se e abeirou-se dum cofrezinho diminuto, todo cravejado a pedras preciosas. Aegle após a transformação não quisera usar mais a Pedra e então o moreno Cavaleiro guardara-a. Mal este abrira-o, Shabnan atirou-lhe com água à cara e proferiu:

- Incauto! Deixai a vossa forma original para vos converterdes numa ave!

E no lugar de Ivanoel surgiu uma ave. Adolfo escutara e observara tudo horrorizado. Shabnan prendeu Ivanoel numa gaiola de ferro e ausentou-se. O cavaleiro franzino saiu do seu esconderijo e tentou abrir a gaiola mas foi em vão. Provavelmente era uma gaiola mágica. Olhou para o cofrezinho mas a Pedra já não se encontrava mais lá. E agora o que fazia? Angustiado foi para os seus aposentos pensativo. Enquanto pensava, foi rodando a moeda de ouro que Ivanoel lhe dera para o salvar do palácio do Sultão. Uma nuvem formou-se e surgiu um ser dessa nuvem.

- Sou um génio. Estou ao vosso dispor.

- Ohhh, um génio?... - Admirou-se Adolfo. – Gostava de vos pedir se podeis transformar Ivanoel de novo em Homem?

- Poderei libertá-lo da gaiola mágica mas para o transformar só através da ação da mão humana. No entanto vos direi como fazê-lo. Ide ao poço que já conheceis e descei pondo a moeda na boca e mergulhai. Não precisais de recear perecer pois isso não vos acontecerá. Ide até ao fundo do poço onde vereis uma argola de ferro. Puxai-a e a tampa se abrirá. Descei pelas escadas que encontrardes e vereis um jardim, procurai uma pereira e colhei uma. Fazei o caminho de volta sem vos deterdes com nada. Fugi do pássaro de asas de prata caso este apareça pois é o seu poder que prende o vosso amigo cavaleiro. Se vos atacar, dai-lhe uma espiga de milho que encontrardes no jardim.

Adolfo assim fez. Foi até ao poço e seguiu as instruções do Génio sem dificuldade. No início fez-lhe impressão mergulhar mas verificou não haver problema em respirar dentro de água. Também se surpreendeu após abrir a tampa de pedra no fundo do poço, de nenhuma água verter para o subterrâneo. Desceu as escadas para o jardim e rapidamente encontrou a pereira. Já fazia o caminho de volta quando surgiu uma enorme ave de asas de prata. A ave fazia voos rasantes e o Cavaleiro teve que abrigar-se debaixo duma árvore. Procurou a espiga de milho e com alguma dificuldade encontrou-a e atirou-a para longe. A ave voou como uma flecha para onde estava a espiga e desatou a comer o milho, distraindo-se. Assim Adolfo conseguiu fazer o caminho de volta.

Chegou à casa de Navid, mas viu a sua oportunidade de entrar nos aposentos onde estava a gaiola, goradas pela presença de Shabnan.

Aliás, durante dias Adolfo não conseguiu entrar nos aposentos do casal pois Shabnan fechava a porta à chave. Adolfo estava a desesperar.

Entretanto era forçado a conviver com ela, diariamente.

Após Shabnan ter transformado Ivanoel numa ave, o seu comportamento mudara visivelmente. Estava mais expansiva e inclusivamente, tentava aproximar-se de Adolfo. Mais, insinuava-se a ele. Adolfo recuava sempre e num momento que Shabnan quase o beijara, Adolfo exclamou:

- Porque me tentais? Acaso não vos lembrais da minha verdadeira natureza?

- Eu olho para vós e só vejo um homem. Um homem que ainda não descobriu que é homem.

Adolfo sentiu-se constrangido e retirou-se.

Resistia em ter intimidades com qualquer mulher mas desde a transformação sentia-se diferente.

Até que uma tarde Shabnan ausentou-se de casa e Adolfo esgueirou-se para os aposentos do casal. O seu coração apertou-se quando viu que a gaiola não estava lá.

-Procurais algo? – A voz de Shabnan fez-se ouvir inesperadamente, sobressaltando Adolfo.

- Es… esperava… Por vós… - Balbuciou ele dizendo a primeira coisa que lhe ocorrera.

- Ah, o doce Adolfo finalmente decidiu assumir a sua virilidade! – Replicou ela sorrindo sedutoramente. Adolfo pestanejou corando.

- É… - respondeu ele por fim, deixando que Shabnan o beijasse. Deixou-se ir na esperança de adormecer qualquer desconfiança de Shabnan e de descobrir o paradeiro de Ivanoel.

A noite já caíra quando Adolfo pediu a Shabnan um chá. Esta ausentou-se diligente e nesse instante Adolfo convocou o génio da moeda.

- Encontrai rapidamente a gaiola e levai a pera pois encontro-me impossibilitado de sair daqui e desconheço o paradeiro de Ivanoel. – Pediu o cavaleiro ao génio que acedeu prontamente. Shabnan entrou com o chá e Adolfo, num momento de distracção da formosa oriental, deitou água na chávena dela. Não tardou que a bela mulher se sentisse mole e sem forças caindo num sono profundo. Adolfo procurou a Pedra. Naquele momento entrou Ivanoel.

- Que fazeis no quarto com ela? – Exclamou atónito Ivanoel olhando para Adolfo semi nu. Após abraçar o amigo, Adolfo explicou com vivacidade os acontecimentos, continuando a procurar a Pedra.

- Mas vós… - Tentou intervir Ivanoel, sendo interrompido pelo companheiro que lhe estendeu a Pedra com os olhos brilhantes.

- Ei-la! – E friccionou-a como da outra vez. A luz apareceu e o guardião da Pedra fez-se presente com o seu sorriso bondoso.

- Meus filhos, fico contente por me convocarem. É uma alegria estar convosco novamente, depois de tantas vivências que tivestes em tão pouco tempo. Bravo Ivanoel, sois testemunha da afeição de Adolfo por vós e a vida mostrou-vos que as aparências enganam e o que conta é a voz do coração. Doce Adolfo, tudo fizestes por amor a Ivanoel, porém pareceis ter dado um passo em direcção à vossa masculinidade. Amor incondicional decerto, mas pareceis ter chegado a uma encruzilhada. Que dizem então os vossos corações?

- Eu amo-vos. – Confessou Ivanoel de lágrimas nos olhos. – Sejais Aegle ou Adolfo, são tudo formas de Amor. Pesa-me perder um para ficar com o outro mas gostava de ser feliz com Aegle.

- Eu… - Adolfo hesitava e ao mesmo tempo sentia a emoção a apertar-lhe a garganta. – Neste momento já não sei de nada…

Ivanoel chorou ao ouvir as palavras do amigo e abraçou-o, enquanto o Guardião proferia em tom sábio: - Deixai que a Pedra decifre os vossos corações.

Os dois choravam e as lágrimas banhavam a Pedra da Felicidade. Então, gradualmente, Ivanoel viu Adolfo transformar-se em Aegle. Louco de alegria pegou nela e beijou-a. Ela correspondeu-lhe mas depois fitou-o.

- Não sentireis a falta de Adolfo?

- Sim, mas é convosco que me sinto completo. – Declarou Ivanoel.

- Quem sabe um dia?... - Sorriu o Guardião despedindo-se do casal apaixonado.



Epílogo



- Adolfo! Adolfo! Onde estás? – A voz de Ivanoel soava ecoando nos verdes campos da sua terra natal. Uma criança de seis anos surgiu correndo.

- Estou aqui, papá. Olha, trouxe umas flores para a mamã! – E estendeu um ramo de flores variadas. Ivanoel riu-se.

- Gostas tanto de flores que não sei como vais virar cavaleiro quando cresceres.

- Uma coisa não impede a outra. – A voz de Aegle fez-se ouvir, enquanto pegava na criança ao colo e recebia as flores que lhe eram destinadas. – A felicidade reside em sermos o que somos… com amor.

Ivanoel sorriu e beijou-a diante do sorriso feliz de Adolfo.


Fim

Autoria de Florbela de Castro

2013

Pode compartilhar livremente a obra desde que respeite os creditos.
 Todos os direitos reservados.Safe Creative #1404130588862

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Conto: " O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade" - 2ª Parte



Adolfo corria às cegas, transtornado. Fora imprudente e agora poderia perder Ivanoel. Era cedo para ele saber. Entrou em casa de Navid e cerrou-se nos seus aposentos, chorando sobre o leito.

Por seu turno, Ivanoel, que ficara chocado e sem reacção, foi tomado por sentimentos de consternação, desorientação e constrangimento.” Como podia ser tal coisa?!... O seu companheiro perdera o tino! Só podia ser isso, não encontrava outra explicação plausível. Ou será que o enganara este tempo todo??”

Cerrou os punhos, sentindo uma fúria crescer dentro de si.” Adolfo teria de explicar-se!”

Como um furacão chegou a casa de Navid e entrou no quarto de Adolfo de rompante, vociferando:

- Cavaleiro Adolfo! Exijo uma explicação!

Adolfo olhou-o com uma expressão de animal acossado e estremeceu. Ivanoel apercebeu-se da reacção amedrontada de Adolfo e ainda se sentiu mais irritado. Agarrou o frágil cavaleiro pelos ombros abanando-o.

- Portai-vos como um homem! Um cavaleiro jamais tem medo doutro cavaleiro! Ou agora virastes cobarde?? Explicai a sandice que me dissestes há pouco no poço!

- É tudo verdade! – Gritou também Adolfo tentando libertar-se – Mas vós não podeis compreender!

- Parai! - Exclamou a voz de Shabnan que entrara nos aposentos. – Adolfo fala verdade … e sempre vos foi leal…. Eu vos explicarei.

Os dois olharam para Shabnan e esta prosseguiu com firmeza e autoridade. – Desde cedo fui uma estudante da Alta Magia e consigo descortinar bem onde existe um encantamento. Adolfo foi vítima dum poderoso encantamento que o transforma de dia num homem de verdade e à noite lhe devolve a sua forma feminina original.

Aquelas palavras atingiram Ivanoel como uma flecha. Adolfo era uma mulher?? Lentamente virou a cabeça para Adolfo examinando-o como se estivesse a fazê-lo pela primeira vez.

- Não posso crêr!... Como tal é possível? – Exclamou Ivanoel finalmente e com ar incrédulo.

-Esperai até a noite ganhar forma e vereis. – Declarou Shabnan.

E assim fizeram. Ivanoel esperava, não pronunciando qualquer palavra e fechado em si mesmo. Adolfo permanecia como que um pouco encolhido e com ar ferido. Queria aproximar-se de Ivanoel mas o ar sisudo deste, dissuadia-o.

Finalmente a metamorfose deu-se e no lugar de Adolfo surgiu uma graciosa mulher de cabelos cor de chocolate. Ivanoel reconheceu a mulher que vira numa noite.

- Ereis vós!

- Sim, era eu. Perdoai-me nunca vos ter contado o que se passava comigo mas ao início sempre me fechei em relação a revelar todo o meu sofrimento e depois apaixonei-me por vós e receava a vossa rejeição.

Aquelas revelações agitavam Ivanoel no seu íntimo. Sentia-se baralhado com a situação e não parava de olhar para aquela mulher desconhecida. Adolfo suspirou como que a tomar coragem e continuou:

- Sou Aegle. Sou vítima duma maldição vaticinada desde antes do meu nascimento. A minha família tem uma inimiga ancestral, que rogou uma praga aos meus pais para que tivessem uma filha que não primasse pela beleza e que nunca conseguisse casar. Caso algum dia fosse amada e correspondesse, seria para sempre homem de dia e mulher de noite. Ao saber disto o meu pai fez-me usar um véu a partir dos meus dez anos e isolou-me numa ilha com uma dama de companhia. Quando eu completei os 19 anos um cavaleiro naufragou na ilha e apaixonámo-nos. Ele queria casar comigo mas quando o encantamento desencadeou a minha dupla natureza ele abandonou a ilha…

Aegle parou para suspirar e desviou o olhar para a janela:- Mais tarde consegui sair da ilha com a ajuda da minha dama de companhia e do seu escudeiro. Tornei-me um cavaleiro com o passar dos anos e sempre fui muito solitária. Um dia ouvi falar da Pedra da Felicidade e o resto já sabeis...

Ivanoel ouvira-a experimentando algum compadecimento, contudo sentia-se enganado e essas duas emoções antagónicas melindravam-no.

- Entendo o vosso passado e a vossa demanda. – Respondeu ele por fim.- Porém não posso olvidar que me lograstes no decurso da nossa amizade. Posto isto, declaro que irei buscar a Pedra para vós como cavaleiro honrado que sou, mas proíbo-vos de me acompanhar. Ficareis aqui na casa de Navid.

Aegle levantou-se de rompante com intenção de protestar mas Ivanoel fitou-a rudemente do alto da sua estatura – Ficai longe de mim!

E saiu para os seus aposentos deixando Aegle de lágrimas nos olhos novamente. – Ele despreza-me! - Soluçou ela para Shabnan. Esta olhou-a condoída e ofereceu-lhe um chá e bolinhos, enquanto conversavam um pouco a fim de acalmar a mulher-cavaleira.

- Escutai-me, - dizia Shabnan – Infelizmente não está no meu poder conseguir que sejais mulher para sempre mas poderei ajudar-vos a aproximar de Ivanoel. Levai esta garrafa de água convosco e na primeira ocasião dai-lha a beber.

Aegle assim fez e na noite seguinte conseguiu dar a água a Ivanoel durante o jantar.

Já era noite alta quando Ivanoel se deparou com Aegle perto duma gelosia… ou seria Shabnan? Tomado por um sentimento estranho, Ivanoel beijou Aegle e tomou-a nos braços.





Ivanoel partira sozinho em direcção à montanha. Sem saber, no seu rasto seguia Adolfo.

Ivanoel tinha recordações enevoadas dos momentos com Aegle. Para ele assemelharam-se a um sonho agradável mas desconcertante. Tentou afastar os pensamentos, pois não se permitia a esses devaneios. Estava deveras ressentido com Adolfo pois tomara-o como um verdadeiro amigo e agora descobrira que não só Adolfo não existia mas também a pessoa que ele era, fora dissimulada com ele.

Assim estava perdido nos seus pareceres, olhando as chamas da fogueira, quando ouviu um cavalo. Deste desceu Aegle, pois já era de noite.

- Vós?? Aqui? – Bramiu Ivanoel - Eu não vos disse para ficardes na casa de Navid?! Mas que capricho as mulheres têm em fazer tudo como querem!

- Não sou só uma mulher! – Ripostou Aegle abespinhada – Por isso não sou assim tão frágil!

- O que quer que sejais não desejo a vossa companhia! – Rugiu ele irritado.

- Pois na última noite que passastes na casa de Navid adorastes a minha companhia! – Gritou Aegle não se contendo. O homem fitou-a por uns instantes, confrangido e logo entendeu tudo.

- Não encontro em mim razões para o ter feito. Deve ter sido uma fraqueza… Julguei ser Shabnan… Nutro uma afeição por ela. Quanto a vós, não sei o que sois. Eu amava Adolfo como um irmão mas vós… não sei o que sois.

Aegle sentiu-se aniquilada com as palavras de Ivanoel, enquanto este se afastava para a sua tenda.





Na manhã seguinte o moreno cavaleiro percebeu que Aegle/Adolfo não se encontrava mais ali. Sentiu alguma apreensão mas lembrando-se da experiência de Adolfo como cavaleiro decidiu não se preocupar. Prosseguiu a sua caminhada em direcção à Pedra. Quando alcançou o alto da montanha, entrou numas grutas e desceu durante algum tempo pelo único caminho visível. As galerias eram maravilhosas cheias de estalactites e estalagmites. Quando passou por um local com um arco, apareceu-lhe um Ser masculino de longas barbas e ar imponente.

- Sou o guardião deste lugar. Benvindo. O que desejais?

- Procuro a Pedra da Felicidade para libertar uma Dama presa a uma maldição. – E contou o caso de Aegle.

- Amais essa Dama? – Inquiriu o Guardião, bondosamente.

- A verdade… É que... Não… - Balbuciou Ivanoel embaraçado.

- Então porque desejais libertá-la? Acaso sabeis que a Pedra da Felicidade só pode ser activada perante um verdadeiro Amor?

Ivanoel estacou atónito. Por momentos sentiu-se desorientado. Poderia levar a Pedra mas sem Amor não funcionaria.

- A Pedra pode vir a ser útil à Dama num futuro… - quase murmurou o cavaleiro.

- Ide. – Ordenou o guardião estendendo a Pedra com ar misterioso.- E recomendai à Dama que a use junto ao peito.

Ivanoel assim partiu de regresso à casa de Navid, desapontado pela demanda pela Pedra se revelar malograda.

(Continua)

imagens retiradas da net

Autoria: Florbela de Castro

2013
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domingo, 26 de maio de 2013

Conto: "O Cavaleiro e a Pedra da Felicidade" - 1ª Parte





Ivanoel era cavaleiro há quase 2 décadas, contudo ainda não chegara aos quarenta anos. De família de origem nobre mas já arruinada antes do seu nascimento, Ivanoel crescera num lar com privações, numa casa no campo. Mas com obstinação almejou chegar a cavaleiro ainda não era homem feito. Neste momento da sua vida já combatera em muitas guerras e batalhas e encontrava-se numa rota num país distante q o levaria ao porto para embarcar no veleiro de volta para o seu país.

Acomodara-se numa ligeira encosta após se alimentar duma côdea de pão, preparando-se para descansar, quando ouviu ali um ruido abafado de passos. Ivanoel conhecia bem os sons da natureza e apercebeu-se q aquele som era metálico o que o pôs em alerta; podia ser um inimigo.

No seu campo de visão surgiu um cavaleiro em armadura, com a viseira do elmo descida. De imediato Ivanoel desembainhou a sua espada e quase no mesmo instante o outro cavaleiro dispôs a sua lança em riste.

- Quem sois? – Bradou Ivanoel. O outro cavaleiro estacou hesitante e acabou por levantar a viseira e baixar a lança.

- O meu nome é Adolfo e sou desta terra. Mas vós tendes aspecto de ser estrangeiro.

Ivanoel assentiu embainhando a espada. Contou-lhe a razão de se encontrar naquela terra. Adolfo convidou-o a saborear um peixe assado. Conduziu-os a um caudal ali perto e após boa pescaria, assaram juntos uma deliciosa refeição de peixe e pão escuro com uma bebida de malte, tudo fornecido por Adolfo. Ivanoel observava Adolfo com alguma curiosidade. Este parecia pequeno e frágil para ser um cavaleiro. Devia ser muito jovem pois o seu rosto era imberbe e de traços suaves e delicados. Adolfo deitou-lhe um olhar dissimulado e desviou os olhos parecendo perturbado e perguntando bruscamente: - Algum problema?...

Ivanoel respondeu-lhe com outra pergunta: - Que fazeis por estes caminhos?... Que destino vos leva a realizar esta peregrinação?

- Encontro-me na demanda da Pedra da Felicidade. É uma pedra tão preciosa que não existe em mais lugar algum do mundo e tem o poder da Verdadeira Felicidade.

- E para que te interessa tal pedra? – Interpelou Ivanoel francamente - Acaso não sois feliz, Cavaleiro Adolfo?

As feições de Adolfo anuviaram-se, adoptando uma expressão de amargura e resignação.

- Existe uma dama, de nome Aegle, que está presa a uma maldição que não permite que ela seja livre para amar. – A resposta de Adolfo denotou uma emoção profunda.

Ivanoel fitou-o perplexo; deduziu pelo discurso de Adolfo que este deveria dedicar um amor devoto por essa donzela. Ao concluir que tão jovem cavaleiro dedicava a sua vida naquela demanda, o seu respeito por Adolfo enalteceu-se.

- Amais essa Dama? O que ela é para vós?... E como uma Pedra pode ter tamanho poder?

- Trata-se duma pedra mágica – explicou Adolfo falando pausadamente. Calou-se por uns momentos como que vendo algo ao longe – Quem a tiver em seu poder ficará liberto de todas as amarras que impedem a felicidade.

- Sabeis onde a encontrar?- Inquiriu Ivanoel.

- Não exactamente. Busco um mago no cimo da montanha mais alta do meu país, que me dará um mapa.

- Irei convosco. – Retorquiu o moreno cavaleiro com determinação – Acompanhar-vos-ei nessa busca de tão nobre propósito.

- … Quanto à Dama… é alguém de quem sou muito próximo… - Levantou-se bruscamente como que para afastar pensamentos desoladores e agradeceu a cooperação de Ivanoel, pedindo-lhe apenas que durante toda a jornada não dormissem juntos na tenda de campanha.

Ivanoel fitou-o perplexo ao ouvir aquelas palavras, pois o pedido soava-lhe descabido mas conteve-se e preferiu respeitar a vontade do Cavaleiro desconhecido, mesmo que muito misterioso.

E assim partiram juntos naquilo que viria a ser uma aventura jamais sonhada, nas suas vidas, por qualquer um dos dois cavaleiros.


Durante longas semanas os dois homens percorreram montes e vales, planícies e planaltos. Durante aquele tempo o companheirismo cresceu entre os dois e tornaram-se como irmãos. Brincavam, riam juntos, pescavam, caçavam e cozinhavam.

Ivanoel como sempre, dormia separadamente de Adolfo, mas muitas vezes se perguntava o porquê disso, enquanto olhava para as estrelas.

Uma noite, já perto do seu destino, Ivanoel decidiu ficar acordado e foi passear nas redondezas. Qual não foi o seu espanto quando se deparou com uma formosa senhora de cabelos cor de chocolate. Como haviam passado durante o dia por uma casa numa colina, deduziu que pudesse ser habitante da mesma. No entanto era de estranhar vê-la fora de portas àquela hora, com a noite já avançada. Pressuroso, aproximou-se para oferecer-lhe a sua ajuda e protecção, contudo a misteriosa mulher fugiu ao vê-lo e Ivanoel perdeu-lhe o rasto. Perturbado, foi deitar-se após a procurar sem sucesso pelas redondezas.

No dia seguinte, contou a sua estranha aventura a Adolfo. Este ouviu-o com atenção e após um curto silêncio, replicou em voz suave que talvez fosse um espirito da natureza ou uma fada. O cavaleiro Ivanoel deixou transparecer no seu rosto a sua dúvida. A mulher parecera-lhe demasiado real para ser do reino mágico. Não quis insistir com o seu companheiro e guardou as suas interrogações para si.

Puseram-se a caminho e passado nem uma hora encontraram um velho de longas barbas no caminho. Era o Mago que Adolfo procurava. Este fitou-os com um olhar perscrutador como que sondando as suas almas.

- Viemos em busca do mapa para… - começou a falar Adolfo, sendo bruscamente interrompido pelo Velho sábio com um gesto impaciente.

- Escusais de prosseguir – replicou num tom seco – Já sei ao que vêm. Aqui têm o mapa.

Adolfo pegou no mapa primorosamente enrolado e estendeu-o um bocado hesitante e confuso com a facilidade e prontidão com que o obtivera. Quando observou o seu interior, o seu semblante esmoreceu: o local onde se encontrava a Pedra da felicidade era num país além-mar.

Ivanoel também se debruçou sobre o mapa e quando percebeu o desalento do companheiro, reafirmou o seu apoio e firmeza em continuarem na demanda da Pedra.

- Não desanimeis bravo Adolfo! – Exclamou o cavaleiro Ivanoel com vivacidade - Com tenacidade chegaremos ao porto deste país e de lá entraremos para o navio ou veleiro que nos levará para o Oriente!

Mas Adolfo deixou-se sentar pesadamente na beira do caminho. Os seus olhos marejaram-se de lágrimas.

- Estou cansado. – Desabafou com voz sumida. – Esgotado de tanta procura, de tanta espera… São muitos anos…

- Como podeis desanimar agora, companheiro? Estamos na posse do mapa e em direcção à Pedra caminharemos! Lembrai-vos da nobre Dama Aegle que vos espera, decerto ansiosa pelo vosso retorno!

Nesse momento o mago interveio em tom ambíguo: - Sei de que mal ele sofre, do mal de amor que lhe tortura o coração e a alma.

- Escutai-me nobre Cavaleiro. – Pediu suavemente Ivanoel pondo a mão no ombro de Adolfo – Pareceis-me jovem e no entanto tendes um ar demasiado melancólico para alguém tão tenaz e garboso e com tanto ainda para viver! Não percais a esperança logo agora!

Adolfo fitou-o com alguma esperança revivida e agradecido pelo entusiasmo com que o outro cavaleiro desejava ajudá-lo.

- Penso que tenho comigo algo que mitigará a vossa espera… - Replicou o mago estendendo-lhes uma pena. – Esta pena de falcão permitir-vos-á viajar numa questão de segundos até ao porto deste reino. Apenas tereis que lhe dar essa intenção. Porém a sua magia cessa aí. Guardai-a depois, porque pode ser-vos útil mais tarde.

Ao ouvir isto Adolfo pareceu renascer em contentamento. Despediram-se alegremente do mago e enquanto Adolfo tomava a dianteiro do caminho se afastando uns passos para se refrescar, o mago redarguiu em voz baixa para Ivanoel:

- Ides ao encontro do amor. Estai atento, escutai o vosso coração e não as aparências. Não sigais o que a vossa mente vos dita mas sim o que o coração vos indicar, ele é que é o sábio.

O cavaleiro olhou-o confuso. – Mas… Estais equivocado Sábio Mago! Não sou eu que procura o Amor e sim Adolfo.

- Às vezes quem nada procura, tudo encontra! – Ripostou o Mago misteriosamente e calou-se à vista de Adolfo.

Ivanoel ainda o fitou perplexo mas foi incitado pelo companheiro a encetarem a viagem até ao porto através da magia da pena.


Já no porto tomaram conhecimento do navio que partia para o Oriente e poucos dias depois embarcaram nele. A viagem foi longa mas decorreu sem incidentes de maior.

Vários meses depois desembarcavam no porto do Reino persa. Lá procuraram hospedagem e roupas. Por um acaso travaram conhecimento com um rico mercador que se mostrou agradado com os forasteiros e lhes ofereceu hospitalidade na sua própria casa. Eles aceitaram aliviados e contentes com a oferta.

A casa do mercador Navid era rica de belas colunas de mármore, trabalhadas e os dois cavaleiros foram muito bem recebidos. Cada um ficou com um quarto de hóspedes e tomaram banho, preparado pelos escravos de Navid. Vestiram bons trajes de seda e no final foram servidos de finas iguarias e manjares. Navid esmerara-se no acolhimento. Durante o repasto os dois forasteiros expuseram a sua demanda a Navid que prometeu ajudá-los.

Já no final surgiu uma linda dama velada que Navid apresentou como sua filha, Shabnan que significava gota de chuva. Navid revelou que a filha era conhecedora de magia e que talvez os pudesse auxiliar nos seus propósitos. A jovem mulher escutou tudo em silêncio e aquiesceu com a cabeça. Ivanoel agradou-se dos traços que o véu deixava adivinhar e de seus olhos e ficou estacado a mirá-la. Shabnan fitou o moreno cavaleiro demoradamente e deitou um olhar furtivo ao cavaleiro delicado. Adolfo desviou o rosto após ter-se apercebido da troca de olhares. Olhou para a lua com expressão vazia e despediu-se afirmando estar cansado da viagem. Shabnan retirou-se logo a seguir à saída de Adolfo, para grande pena de Ivanoel.

Deixou-se ficar mais um tempo até que acabou por se retirar. Qual não foi o seu espanto quando viu Shabnan sair dos aposentos de Adolfo! Não se conteve e interpelou a bela oriental. Esta olhou-o nos olhos e falou a meia voz:

- Talvez não compreendais as palavras que vou proferir agora mas viajais em direcção a um grande amor, mas por ora não vos poderei dizer mais nada. Amanhã ide com Adolfo ao poço que existe nos limites da cidade, ao entardecer e pedi ao vosso amigo para vos revelar o que mais o atormenta. O poço é mágico e perto dele qualquer pessoa só conseguirá falar a mais pura das verdades.

- Mas… porque me dizeis isto? Acaso achais que o meu companheiro não me é leal? Eu já sei o que mais atormenta o valoroso Adolfo! E isso não explica o que fazíeis nos seus aposentos.

- Sabereis esse porquê amanhã no poço… - E retirou-se sem mais delongas.

Tal como lhe aconselhara Shabnan, ao entardecer Ivanoel convidou Adolfo a ir passear até ao poço mas sem lhe revelar o seu propósito. Este assentiu com um ar melancólico. Estava assim desde que acordara para espanto de Ivanoel. Seguiram em silêncio até ao poço e lá descansaram. Ivanoel interpelou então o amigo o que o atormentava. Sem saber como, Adolfo respondeu-lhe que até ao dia anterior sofria por querer encontrar a Pedra mas que agora sofria por Ivanoel.

- Mas porquê por mim?...

- Porque vos amo e percebo que estais apaixonado por Shabnan! – Quase gritou Adolfo com intensidade. Ivanoel sentiu-se fulminado por aquela revelação absolutamente inesperada. Adolfo instintivamente tapou a boca com uma mão ficando petrificado, mas segundos depois corria veloz dali.


Autoria de: Florbela de Castro

imagens retiradas internet

2013

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domingo, 24 de março de 2013

Conto: "O Sapateiro e a Tesoura Mágica" - por Florbela de Castro




No tempo das perucas altas e alvas, num país com neve, mas de montanhas floridas chamado Áustria, vivia um sapateiro solitário, de nome Gerhard. Este geria onegócio de família, herdado há gerações, contudo no presente momento já não lhe restavam mais parentes e vivia só. Desde há uma década que exercia o ofício de sapateiro, que incluía oficina e loja de rua, porém, na actualidade, debatia-secom dificuldades, pois o seu calçado vendia pouco, situação não igualada aos tempos áureos em que seus avós e pais governavam essa actividade. Ele até modernizara os seus instrumentos de trabalho e a loja, feito em que gastara parte do dinheiro amealhado pela família e que já fora despendido em parte nas doenças de seus pais, que haviam requerido viagens constantes à montanha.

Gerhard já passava dos 40 anos, contudo já era calvo, os seus restantes cabelos eram claros e possuía olhos esverdeados, usava óculos, tinha um pouco de barriga mas não era encorpado. Na sua adolescência até tinha boa figura mas depressa se havia desfigurado. Os seus ajudantes, moços ainda de verde juventude, riam-se à socapa da pouco graciosa silhueta do patrão. “Seria por isso que não teria clientela?”

Ainda assim Gerhard era um hábil sapateiro, todavia só conseguia vender a sua produção para pessoas com poucas posses. Nem ricos mercadores, nem fidalgos adquiriam as suas obras.

Numa bela noite de primavera, Gerhard trabalhava numas botas de pele encomendada spor um caixeiro-viajante, oportunidade rara dum bom negócio.

Acerta altura a sua faca de sapateiro, chamada trinchete, partiu-se em dois.“C’um os diabos!”, Gerhard fitava admirado o utensílio: - Como foi isto partir??...

Ainda magicando no assunto, lembrou-se de ir à cave da loja buscar a tesoura usada por seus pais e avós no corte do couro e tecidos para o calçado, posta de lado desde a reforma de todo o negócio. E se bem o pensou, melhor o fez, terminando o corte do modelo com a antiga tesoura. Devido ao adiantado da hora Gherard não entregou o serviço às gaspeadeiras e coseu ele próprio as botas com muito primor. No final da tarefa admirou o seu trabalho satisfeito.

No dia seguinte, veio o caixeiro-viajante buscar a encomenda, pagou o preço justo e partiu para o seu destino.

Uma semana mais tarde, ainda Gherard dormia quando alguém madrugadoramente bateu à porta, com insistência.

Ensonado,o sapateiro foi abrir. Um homem de vestes abastadas adentrou a loja e retirou ochapéu, revelando ser o caixeiro-viajante da semana anterior.

Entusiasmado,o forasteiro contou ao perplexo sapateiro como a sua vida se transformara radicalmente no espaço de 7 dias, desde que calçara as botas feitas por Gherard. Fizera de tal forma bom negócio que se tinha conseguido estabelecer na cidade vizinha e com muito sucesso.

-Era o meu amor desejo – confidenciou com vivacidade o ex-caixeiro-viajante –visto que sou natural de lá.

E empolgado encomendou um par de sapatos a Gherard que permanecia um tanto ou quanto incrédulo. Mas como o cliente estava a apagar adiantado, o artífice nem pestanejou.

E novamente pôs mãos à obra. Também, pudera, há uma semana que só fazia pequenos arranjos.

Novamenteo caixeiro-viajante retornou no dia seguinte para vir buscar a sua preciosa encomenda. Alegremente se despediu de Gherard.

Uma semana depois a cena repetiu-se e o forasteiro estava de volta, desta vez acompanhado duma senhora, que este apresentou como sua esposa. Nesta ocasião encomendaram um par de calçado para cada um, com a finalidade de acorrerem a um baile no palacete dum barão, para o qual haviam sido convidados, exactamente após o ex-caixeiro calçar os sapatos manufacturados por Gherard.

Espantado,mas já menos descrente, Gherard pôs as mãos ao trabalho. Laborou afincadamente nas suas encomendas e três dias depois o casal comparecia para levar o calçado e deixar uma quantia generosa. Gherard agradeceu efusivamente enquanto que o forasteiro, já seu conhecido, afiançava:

-Tem aqui um cliente e amigo para a vida. O calçado feito por si, são verdadeiras obras-primas que têm o condão de nos conduzir aos nossos desejos.

Despediu-se alegremente deixando Gherard a pensar. Tudo aquilo parecia-lhe fazer sentido,no entanto, o que ele estranhava um pouco era como o caixeiro sabia e houvera descoberto realmente que o calçado tinha propriedades mágicas. Contudo reservou as suas interrogações para um dia mais tarde serem esclarecidas.

A fama de Gherard foi-se espalhando e os clientes e as encomendas aumentaram consideravelmente. As pessoas eram em geral abastadas e voltavam sempre para mais encomendas ou indicando alguém, contando como os seus pares de sapatos modificavam suas vidas.



Numa das suas deslocações pela cidade para comprar mais tecidos e peles, Gherard passou por um palacete e reviu uma linda mulher jovem, de quem ele ao longo dos anos sempre se encantara, através das vidraças duma janela. Como era bela! Gherard suspirou à vista daquela figura graciosa por si admirada ao longo dos tempos. Contudo achava-se demasiado feio para conseguir chamar-lhe a atenção. Acabrunhado foi à sua vida.

Ocasionalmente,o sapateiro voltou a ver a dita donzela e contemplava-a ao longe sem nunca ter coragem de tomar uma iniciativa.

Elsa de seu nome, era uma jovem fidalga de beleza tipicamente germânica; cabelos loiros quase platinados, olhos dum azul semelhante a uma turquesa cinzelada, de pele alva, faces levemente ruborizadas; esguia, o que fazia com que a sua estatura mediana a fizesse parecer mais alta. Elsa não primava pela simpatia e o seu porte altivo de queixo afilado e sorriso que não desmantelava as sua sfeições de boneca de cera, corroboravam esses atributos da sua personalidade.

Gherard já a conhecia de vista desde jovem mas devido à diferença de estatuto jamais tivera o ensejo de a conhecer. Com o passar da vida, arrumara essa recordação tão deliciosa, que o tempo trouxera de volta.

Porém desta vez Elsa, não saía da sua cabeça. Sonhava em poder cortejá-la, passear com ela, mostrá-la ao mundo, ao seu lado.

Inesperadamente,um dia a figura graciosa de Elsa irrompeu pela sua loja! Fazia-se acompanhar por mais uma senhora jovem e por uma senhora de idade. Gherard a custo conseguiu disfarçar a sua perturbação.

Encomendaram lindos sapatos para um baile enorme dado no Paço Real a fim de anunciar o noivado do jovem Príncipe.

Elsa tagarelava entusiasmada com as outras duas senhoras agindo como se nem sequer visse Gerard. Este sentiu-se acabrunhado. De certo se fosse rico e belo como o príncipe teria todas as mulheres aos seus pés.

Devido à magnitude e importância do evento muita gente importante iria comparecer no baile.


Um par de dias depois, Gerard recebeu uma missiva que descobriu ser do seu tão bem conhecido caixeiro-viajante convidando-o para se deslocar à sua cidade natal para uma encomenda de calçado para o baile real.

Nesse mesmo dia pôs-se a caminho; tomou uma carruagem de passageiros que viajou durante algumas horas até o centro da cidade vizinha. A noite já caia e Gerard ainda tinha de se dirigir para os lados de uma aldeia perto da montanha. Alugou um burro e partiu para a segunda etapa do trajeto apesar dos murmúrios e resmungos do estalajadeiro onde alugara o animal, avisando-o da distância e dos perigos da montanha e das entidades sobrenaturais que nele habitavam. O sapateiro seguiu com um encolher de ombros.

Consigo transportava um farnel, o seu banquinho, a tesoura, agulha, linha e várias amostras de peles e tecidos. Já tinham avançado cerca de uma hora quando caiu uma tempestade seca com rajadas fortes, trovões e relâmpagos.

Passou por uma vedação e pensou abrigar-se da tormenta que se avizinhava. Um intenso relâmpago revelou a presença de uma linda camponesa. O rosto feminino pareceu-lhe surreal. Fios negros pendiam desarranjados num coque solto emoldurando o rosto esguio e oval de um tom leitoso e aveludado. Os lábios carnudos e redondos tinham um tom rosa-cereja completando o quadro de beleza que pairava como uma miragem na sua frente. Gaguejando inquiriu onde era o palacete do caixeiro-viajante. A jovem apontou-lhe o caminho dizendo que após virar a colina encontraria a única habitação das redondezas, não havia que enganar, era só mais meia hora de caminho. Tão depressa o homem olhou para a frente para ver direções como ao retornar o olhar a jovem havia se eclipsado!

Foi já debaixo de uma chuva fustigante que se encontrou perante um castelo, umt empo depois. Não cruzou com vivalma nos pátios e entrou por uma ala lateral. O sapateiro sentia-se confuso e atónito com a magnificência do interior do castelo onde habitava o seu amigo caixeiro-viajante.

O castelo era profusamente ornado a ouro e mármores raros. A cada passo podia encontrar do bom e do melhor. Veludos da Prússia, tapetes da Pérsia, sedas da China, porcelanas de Limoges, cristais de Boémia…

Encontrou mesa posta, servida em salva de prata, e cama feita em alvos lençóis de Cambraia.




Ao lado havia um bilhete com instruções para o fabrico duns sapatos de festa, junto com um par de sapatos para tirar o molde.

O sapateiro não se fez rogado e trabalhou afincadamente na manufactura. O trabalho corria-lhe veloz pelas mãos e admirou-se de concluir o serviço em 3 horas.

Gerard acabou por cear e deitar-se sem encontrar vivalma, de tão exausto que estava. A madrugada já se instalara quando uma nuvem apareceu mesmo aos pés da cama do homem. Perplexo viu surgir um ser masculino de quase 2 metros, encorpado que lhe falou com uma voz de trovão.


- Sapateiro!...Admirado deves estar por seres possuidor de tão invulgar talento! Não te perguntas como este dom te veio parar às mãos?!... – E fitava-o com um olhar misto de arrogância e condescendência, vendo as feições do homem se ruborescerem. E sem se deter contou a Gerard como ele próprio já havia aparecido aos seus bisavôs, oferecendo-lhes uma Tesoura Mágica para o molde e manufacturação do calçado. O instrumento tinha o condão de abrir caminhos na vida das pessoas, conforme os seus desejos mais recônditos. Após esta revelação, perguntou em voz melíflua se Gerard não havia jamais pensado em dar um rumo diferente à sua vida. O sapateiro pestanejou, hesitante. Magnus, o gigante, redarguiu que Gerard podia escolher o destino que desejasse, tão somente o sentisse no seu intimo e formulasse esse desejo e confeccionasse um par para si mesmo. Já não bastaria de vida sem sabor e sem alegria? Afinal com aquela Tesoura podia sonhar e saber que tudo se realizaria. Com um sorriso trocista viu a expressão do sapateiro iluminar-se. Com uma gargalhada despediu-se dizendo para Gerard dormir sobre o assunto. O homem de meia-idade deitou-se e adormeceu com a cabeça fervilhando de ideias grandiosas.


No dia seguinte acordou estremunhado em sua própria casa. Durante um tempo perguntou-se se tudo não teria passado dum sonho. Porém lembrou-se das palavras de Magnus e a única de maneira de comprovar tudo seria fazendo uns sapatos para si. Pôs mãos à obra e executou um par de sapatos para o baile que haveria nessa noite.

Os sapatos sem dúvida ficaram belos, forrados a maravilhoso acetinado e de fivela de prata. Gerard calçou-os ansiosamente e fitou-se no espelho:

A sua desengonçada figura metamorfoseara-se num belo e garboso homem de estatura alta, robusto mas esbelto, de sedosos cabelos louros ondulados e brilhantes olhos verdes.

O seu ar atónito depressa se desfez num sorriso. Estava pronto a conquistar o mundo.







A partir daquela noite Gerard tornou-se um “habituée” dos bailes e serões literários, dos salões das mais nobres famílias da região e das regiões vizinhas. Cedo, as donzelas se tomaram de amores por tão bom partido.

Gerard sentia-se poderoso com tanta adulação e rapidamente tirou partido dessa situação namoriscando com quase todas as pretendentes que lhe caíam aos pés.

A certa altura Elsa começou a aparecer em alguns bailes e serões. Os sapatos haviam-lhe proporcionado outra posição social e deixara de ser dama de companhia. A vaidade e atração do gentil-homem, foram estimuladas por esta nova oportunidade e não tardou em fazer-lhe a corte e tornar-se seu prometido. Contudo nem esta nova reviravolta afastou Gerard da sua faceta oculta de conquistador. Sentia o seu amor-próprio insuflado pela fama que ganhara junto ao público feminino.

Como a vida dele adquirira uma nova côr!... O homem mantinha uma vida dupla pois ninguém desconfiava que o sapateiro era o galhardo gentil-homem que fazia inveja ao próprio príncipe.







Não era sempre, mas Gerard começou a ter sonhos estranhos. Sonhava que estava num mundo aparte, num mundo que existia mas ele não sabia como nem onde. Frequentemente lhe surgia a figura doce e quase surreal duma mulher que parecia flutuar. Com o tempo julgou reconhecer semelhança com a camponesa que lhe indicara em tempos o caminho para o castelo, contudo as vestes divergiam e esta tinha o ar ainda mais surreal e etérico. A figura instava-o a desistir do caminho que tomara na vida, daquele comportamento duplo e camuflado e a melhorar por si mesmo. Quando acordava nem sempre Gerard se lembrava dos sonhos. Às vezes permaneciam fragmentos, outras vezes era a desmemória total.

Mas do pouco que se lembrava, mesmo não entendendo o significado dos sonhos, Gerard murmurava para os seus botões que não mudaria nada das suas escolhas, pois merecia o caminho que trilhava, após as agruras que passara na vida.




Enquanto a natureza se encontrava serenada e antes do raiar da aurora, havia-se reunido um conselho de seres da natureza: O Rei dos elfos encontrava-se face àquela singular aglomeração, tendo na sua frente Alienor, a bela elfa de beleza surreal.

Esta exortava com empenho a uma intervenção mais definida junto de Gerard, contudo o rei parecia estar reticente.

- Se não intercedermos com mais veemência Gerard pode estar perdido para sempre! E jamais se reunirá a nós para voltar a ser o Príncipe Alaric, dotado da capacidade de gerar caminhos!...

O rei interrompeu-a com um gesto brusco, silenciando-a:

- Sim, bem sei que a família que recebeu Sua Alteza e fez o papel de sua família verdadeira, se aliara com gnomos e duendes o que facilitou o trato. Tomou o nome de Gerard derivado à sua missão, cujo papel era um dia ser salvador da natureza deste reino. A tesoura acompanhou-o como presente e apoio reunido dos gnomos, duendes e elfos. E é de acrescentar que graças à ajuda das fadas, permaneceu de identidade escondida e sem memória ou conhecimento dos seus antecedentes. – Replicou o rei – Mas Gerard escolheu outros caminhos escusos…

- Oh, ele foi influenciado pelo gigante Magnus! – Exclamou Alienor com intensidade.

- Foram as suas escolhas…- Reiterou o rei com paciência mas firmeza - E quando se escolhe a Natureza age em conformidade.

- Mas algo mais que os sonhos que lhe envio tem de ser feito! – Voltou a exclamar Alienor quase de lágrimas nos olhos – Senão, como me vou reunir com O Escolhido?... Ou vão permitir que ele continue a desequilibrar o curso da Natureza com o que faz?

Com aquelas palavras gerou-se um burburinho. Realmente a situação não podia prosseguir por muito mais tempo ou as consequências seriam nefastas tendo em conta as leis da natureza. Mexer com o que não se era suposto, era forçar os acontecimentos para um curso não natural e isso traria um desequilíbrio no curso/ fluxo normal da Vida.

Convocaram a Fada que os ajudara em tempos. Esta surgiu e falou:

- Sabem que nem tudo pode ser desfeito ou revertido, tendo em conta o que já foi feito. Mesmo aliando o meu poder ao rei dos elfos, o máximo que podemos reverter, é fazê-lo ter consciência e memória de tudo mas a união poderá estar comprometida para sempre.


O rei dos elfos aquiesceu e continuou por seu turno: - A sua essência original de elfo vai ser reactivada. Gerard ganhará consciência de quem é mas não de quem tu és. Poderão ver-se mas não conseguirão ficar juntos se ele não mudar de rumo. E mesmo que mude, a união física poderá nunca ter lugar a não ser que ele ganhe consciência de tudo.

- A sua aparência permanecerá como a do príncipe dos elfos. – Acrescentou ainda a fada – Mas um véu de esquecimento descerá sobre os humanos e estes não se recordarão mais de quem era Gerard antes destas mudanças. Só ele se aperceberá de todas estas alterações


E a reunião terminou deixando Alienor pesarosa e preocupada com o desfecho vaticinado para Gerard.




Os dias e semanas que se seguiram à reunião dos elfos, foram para Gerard, confusos e avassaladores. Lembranças dum passado que nunca antes houvera memória, atropelavam-se na cabeça dele como certezas indubitáveis. Sensações familiares mas que lhe eram absolutamente estranhas, invadiam-no. Durante uns tempos andou nesse estado febril de perturbação e quase julgou enlouquecer. Até a cidade e todos seus conhecidos pareciam ter entrado numa loucura colectiva pois ninguém parecia recordar da aparência e afazeres anteriores de Gerard e saudavam-no, felicitando o seu bom aspecto como se fosse normal uma transformação física tao drástica… ou pior: pareciam nunca tê-lo conhecido doutra forma.


Até que reviu a camponesa surreal em sonhos, desta vez cm percepção total dos mesmos, já acordado, que lhe foi elucidando sobre o teor de tudo que lhe assaltara à mente.



Pouco tempo depois, Gerard casou com Elsa, pois o enlace já estava programado mesmo antes da memória original de elfo ser reactivada nele. O casamento foi de pompa e algum tempo depois um filho vinha a caminho.


A vida parecia finalmente presentear o ex-sapateiro com tudo aquilo que ele mais almejara: riqueza, prestígio, popularidade, enfim ventura em todos os aspectos. Gerard pusera as re-memórias um pouco de lado com o próximo nascimento do rebento. Contudo, nada o fazia realmente vibrar: o vazio permanecia enraizado e acumulado por aquelas lembranças bizarras. Aliás, esses pedaços duma existência paralela eram a única coisa que nutria mínimamente o seu íntimo.

Foi então que A reviu: a figura da mulher surreal mirava-o junto à igreja do outro lado da praça. O seu olhar fundiu-se com o dela trazendo-lhe a impressão duma intimidade e reconhecimento extraordinário, sem no entanto desvendar a razão de tal. Tão depressa a viu como deixou de ver e apesar de ter tentado apanhá-la, a mulher parecia ter-se sumido como da primeira vez.



Primeiro veio a epidemia. Mortal e altamente contagiosa. Encerravam-se ruas e casas, ostracizavam -se pessoas e famílias, queimavam-se corpos e haveres.

Elsa foi uma das numerosas vítimas do flagelo. Gerard sentiu-se esmagado pelo peso da amargura, derrota e consternação com o rumar dos acontecimentos, pois a sua percepção de elfo lhe dizia que assistia ao retorno que a Natureza lhe dava por influenciar o seu curso. E pouco depois caiu doente, sendo exilado da cidade como os que não tombavam logo vítimas daquela enfermidade.



Quando Gerard voltou à cidade, esta tornara-se uma cidade fantasma tal como tantos outros lugares daquelas regiões. Partiu para a floresta e após caminhar um bocado surgiu-lhe Alienor. Esvaído, ele suplicou:


- O que faço?... Porquê isto tudo?..


A elfa acercou-se dele e soprou-lhe no coração fazendo-o lembrar-se da união dos dois. Os olhos dele marejaram-se de lágrimas.


- Alienor!... Como me pude alhear tanto de ti e do teu amor?... – E mirava-a a transbordar de amor, enquanto Alienor chorava de emoção.


Estavam quase a cair nos braços um do outro quando a Fada surgiu, interferindo. Explicou ao Príncipe elfo qual era a sua identidade e a sua missão, a intromissão de Magnus, que desejava a tesoura e ainda mais derrubar Gerard, aliás, o príncipe Alaric, e como este mesmo malograra a sua missão e a sua própria vida, sofrendo as consequências já por si conhecidas. Elucidou também como funcionava o equilíbrio da natureza e o quanto eles tinham intercedido para ele não ficar pedido para sempre.


- Infelizmente, mesmo tendo os nossos poderes, o teu destino já foi deliberado em conselho com todos os seres da Natureza. E terás que permanecer cristalizado por tempo indeterminado, até um dia em que o Amor novamente e a Natureza te resgatem a alma, através duma nova vida.


Gerard encarou a Fada um bocado confuso. Mas esta não se deteve e virando-se para Alienor disse, antes de se eclipsar: - Vocês já não têm muito tempo visto que já anoiteceu há um pedaço e depressa a Aurora raiará e quando isso acontecer, ele ficará cristalizado.


E os dois elfos envolveram-se nos braços um do outro como se pudessem suspender o tempo.




Quando a aurora veio, os dois amados, fitaram-se e beijaram-se docemente, enquanto o corpo do príncipe se cristalizava progressivamente.

Alienor olhou o sol. Estava triste mas tinha esperança. Eles eram imortais e de qualquer forma a mãe Natureza presenteava-a pois no seu ventre já germinava o fruto daquela ligação.



Autoria de Florbela de Castro
2012

2a imagem autoria Phoenix Lu

3ª imagem autoria Heise Jinyao

4ª imagem autoria de Feimo

As outras imagens são de autoria desconhecida



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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Poema: "Os Cavaleiros da Lusitânia" - por Ana Paula Esteves




Chamam-lhe o Quinto Império,
Outros, a Terra Prometida.
Eu queria apenas,
Viver em Harmonia


Uma vez Descobridores,
Navegadores de Sonhos,
Conquistadores de Mares
Em perigos medonhos


Perdemos Impérios,
Por várias razões.
Irmãos já não éramos,
Sem excepções


O Hino é a tua Pátria,
A Língua é de Camões
Deixaste na escrita
Todas as emoções.


A Nação vai viver,
O Reino da União.
Ao Mar Voltarão,
Os filhos de D. Sebastião.


autoria de: Ana Paula Esteves

2009

http://artlira.blogspot.pt/2009/10/os-cavaleiros-da-lusitania.html

Web site desta imagem
ailhaafortunada.blogspot.com

Autoria: Howard David Jonhson

Poema: "Ilha" - por Sofia Sampaio


Com o verde em imensidão
E um areal interminável
Fez da Lua o seu coração
E do seu poder indominável.
Reinam nela animais encantados
Fadas, seres e princesas,
Ogres, elfos e cavalos alados;
Seres de todas as naturezas
E de todos os formatos.
Aqui, a paz é imprescindível
A afinidade e a sinceridade, também
A desordem é indizível,
As armas usadas para o bem
Todas as raças se misturam
Tratam-se todos como irmanados
São os habitantes da ilha Urgzan
A ilha dos seres encantados



Autoria. Sofia Sampaio (BabySuhBr)

2005

1ª Imagem da autoria de: Anne Stokes
www.annestokes.com

2ªimagem da autoria de: Heise Jinyao
http://www.heisejinyao.com




Poema: "O Perfeito Homem Incompleto" - por Florbela de Castro






Há uma clareira num bosque pintado de azul
E a lua cheia, nimbada, mancha de branco o paul.
Um nevoeiro denso envolve a paisagem, como num sonho.
E à excepção de uma leve brisa, o silêncio é medonho.
Mais lá adiante, o céu tinge-se de néon
E daí, trazido pela brisa, ouve-se um ligeiro som;
O restolhar da relva, devido ao orvalho da madrugada
Denuncia, recortando-se no horizonte, uma aparição encantada.
A figura estacou a escassos metros de distância
E revelou ser um homem de ar simples, mas extrema elegância.
Os seus longos cabelos loiros eram ondulados
E a sua pele diáfana tinha reflexos dourados.
O seu rosto de traços perfeitos era cheio de harmonia
E os seus olhos azuis, grandes, claros e límpidos como uma safira.
O alto homem fitou-me sem, no entanto, falar
E começou a conversar comigo, sem a sua boca descerrar.
Sobressaltei-me ao escutar palavras que não eram trazidas pelo vento
Pois era voz grave e calma era-me transmitida por pensamento
Inquiriu-me, então, pausadamente, o que fazia eu naquele lugar
E eu respondi: - Mergulhei no mundo dos sonhos e vim aqui parar.
Interpelei-o sobre o porquê de não articular palavras
Ao que ele respondeu, prontamente, que eu não entenderia nada.
Intrigada, quis saber a razão dessa afirmação
E ele retorquiu que o meu mundo era deturpado e cheio de corrupção
Por isso, os seus habitantes, como eu, não conseguiam compreender
O idioma daquele mundo que eu viera conhecer
O jovem estendeu-me a mão para o seu país me mostrar
E naquele momento reparei que a aurora estava a despontar.
Vi planícies e montes onde o verde-esmeralda era a cor dominante
Mas acho que nem tenho palavras para descrever aquela maravilhosa paisagem luxuriante.
Aqui, a fauna e aflora pareciam mais livres e viçosas
Do que quaisquer outras que eu tivesse lido em romances cor-de-rosa.
Extasiada, opinei que ele vivia num Paraíso;
Contudo, o jovem fitou-me sem esboçar um sorriso.
Indaguei como podia estar tão triste com um mundo tão perfeito, para mim
E o homem confessou que se sentia infeliz assim,
Pois faltava-lhe algo para a sua felicidade colmatar,
Algo que não existia no seu mundo e que ele ansiava encontrar.
Admirada reflecti comigo mesma – “ E vivendo num Paraíso que mais poderá ele querer?”
E ele respondeu, já falando: - “ É que eu sou um Homem e tu uma Mulher!”

Autoria de Florbela de Castro
1996


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Conto: "O Pintor de Quadros" - Por Florbela de Castro




Nos tempos da Renascença, onde florescia a arte, vivia na Rússia um jovem de origem modesta, que almejava ser pintor. O seu nome era Alexander.

Alexander era magro, de estatura média, pele quase cor de baunilha pálido, olhos amendoados e negros como os seus cabelos ondulados, usava bigode fino e pera.

Apesar de bonito e em idade casadoira, Alexander não arranjava pretendentes, pois interiormente era uma pessoa um pouco fechada e abrupta.
Alexander tinha um sonho: tornar-se um pintor famoso. Porém não tinha posses para frequentar uma academia, nem conhecimentos influentes para se tornar pupilo de algum mestre famoso. Os seus pais também reprovavam essas atividades e apesar do filho ser detentor de um dom nato não o incentivavam a pintar. Ao início Alexander pintava e desenhava às escondidas, mas após seus pais descobrirem, foi instado a abandonar os seus sonhos.

No presente momento, Alexander ficara órfão e como era filho único, sem família, conjecturou voltar a pintar. E como faria para arranjar dinheiro para os materiais? Cedo arquitectou uma forma. Foi vendendo o recheio da casa até quase a esvaziar. A seguir foi pondo mãos à obra, noite e dia, e produziu um quadro de natureza morta. Estava maravilhoso; Alexander admirou até altas horas e por fim adormeceu sonhando em ganhar um bom dinheiro com este.

No dia seguinte acordou bem cedo para ir para a feira levando a sua obra debaixo do braço. A feira estava apinhada, com banca de doces, tecidos, hortaliças, pratas, tamancos e uma profusão de pessoas.

Enquanto se dirigia ao local para vender o seu quadro, Alexander sentia fome e já sonhava deliciado com o deglutir de uma nêspera sumarenta e de um pão com queijo. Ao caminhar tropeçou em várias frutas e até ouviu uma peça de vidro fragmentar-se em mil pedaços "Estes mercadores se não têm cuidado só verão prejuízos no final do diz", pensou ele. Finalmente alguém lhe perguntou o que ele levava ali. Tratava-se de um casal de uma certa idade e de aspecto abastado. Talvez fosse algum meirinho.

-Este quadro retrata uma maravilhosa taça de cristal adornada de belos frutos - anunciou Alexander, virando a tela para o casal de meia idade.

Os seus rostos ficaram sem expressão ao fitar aquela obra enquanto o jovem pintor ostentava um sorriso triunfante. à medida que o abastado cliente transfigurava a sua expressão curiosa numa de ira, o sorriso de Alexander desmaiava no seu rosto.

-Patife! - vociferou o velho - Tomais-me por idiota?? Como ousas querer enganar-me!?

-Enganá-lo, senhor?... - o jovem artista estava perplexo - Se a minha tela não vos agrada... - foi interrompido pelos sorrisos e gargalhadas de sarcasmo de uns e os impropérios iracundos de outros.

Só então o pintor olhou para a sua tela e o que viu fê-lo empalidecer de espanto. Nada havia ns mesma a não ser um fundo castanho escuro que ele tão primorosamente pintara. Mas...como era aquilo possível??...

Alexander estava desnorteado, contudo teve de fugir lestamente para não ser atacado pela multidão. Derrotado e esfomeado, chegou a casa sem compreender o sucedido. Pensou, pensou e por fim adormeceu angustiado, pois dormir já era meio sustento. Ao acordar de manhã uma interrogação tomou forma na sua mente: A taça que se partira e as frutas pelas quais tropeçara na feira seriam as do quadro?

Assomou-lhe então uma ideia à cabeça e sem mais delongas pôs-se a esboçar um quadro onde o tema era uma lauta refeição. Terminou-o já noite alta e extenuado e enfraquecido adormeceu. Acordou de manhãzinha com uma mesa farta e deliciosos aromas. Sim, mesa que ele nem sequer tinha mas que havia desenhado, adornada de uma vistosa toalha vermelha. Vitorioso Alexander atirou-se à bela refeição esfaimado.

A partir dali, ele passou a desenhar as suas refeições diárias e voltou a mobilar a sua casa. Tentou ser discreto com a vizinhança, fazendo-os acreditar que vendia os seus quadros numa vila longínqua. Passaram-se longos meses. O dom tomara a cabeça de Alexander. Este afastara-se da aldeia e, entrando na floresta, havia desenhado um belo palacete com um luxuoso palacete. Depois, criados, belas carruagens e cavalos, magnificas roupas.

Haviam-se passado três anos. Apesar da criadagem, sentia-se só. Lembrou-se então de desenhar uma mulher.



Três dias gastou a desenhar, pintar e aprimorar uma bela mulher. No final Alexander mirou o quadro satisfeito, sentindo-se um Deus, pois brevemente teria a sua Deusa nos seus braços. Aliás, passou o resto do dia admirando a sua obra e a bela mulher; até fez as suas refeições nos seus próprios aposentos para não desfitar os olhos da pintura. Bem sabia que no dia seguinte ela ganharia vida.

Tentou deitar cedo, mas custou-lhe a adormecer. Finalmente mal abriu os olhos, saltou da cama e e deparou-se com a formosa mulher. Esta era de estatura média, delgada, de olhos claros esverdeados, cabelo escuro e ondulado, de beleza delicada mas selvagem; tão genuína era a sua essência que não parecia ter sido inventada por um pintor mas sim diretamente criada por fonte divina.



Alexander permaneceu de olhos esbugalhados a contemplar a linda mulher e imediatamente se viu apaixonado por ela.

A partir daquele dia o homem tornou-se um delicado companheiro da bela Nathalie, de seu nome; presenteava-a com os mais belos vestidos, tecidos, toucados, jóias e perfumes. Brindava-a com finas iguarias, exóticas frutas, deliciosas sobremesas. Conversava e passeava com ela à noite...na realidade, Alexander monologava pois a mulher permanecia sem emitir qualquer som desde que surgira.

Mas o homem, louco de paixão, nem se parecia importar com isso. Por ela pintou mais retratos, casas, jardins, o mundo...Contudo a jovem permanecia calada e reservada, suspirando de vez em quando.

Alexander bem via que a sua paixão não era correspondida e que nada fazia feliz a sua Nathalie. Isso também o deixava infeliz. Porém a paixão dominava-o e só o fazia teimar na sua conquista. Febrilmente pintava presentes magníficos, manjares deliciosos, luxos ostensivos continuamente, mas nada disso trazia o amor de Nathalie…

Desesperado, um dia, interpelou a linda moça do que fazer para a conquistar.

Esta, por fim, respondeu-lhe em voz clara e límpida.

-Amarei aquele que tiver uma alma cristalina e um coração de ouro.

Esta resposta deixou Alexander confuso. Uma alma cristalina?... Um coração de ouro?... Como pintar isso?...

Passou semanas errático e cismático, acabrunhado por não saber como pintar aquilo e torná-lo seu.

Até que um dia ouviu falar numa velha feiticeira que vivia na orla da floresta e resolveu visitá-la apresentando-lhe todo o seu caso.

Esta deu uma gargalhada e disse que a fama de Alexander precedia-o. Pausadamente falou que tinha a solução para ele. A três aldeias dali vivia um rapaz de coração de ouro e alma cristalina e que Alexander só precisava ir buscá-lo e assinar um pacto com ela, lacrado com o seu sangue. Excitado mas ainda confuso, o pintor tartamudeou como iria reconhecer o rapaz e como iria conseguir transferir o que ele queria para ele mesmo.


A velha estendeu-lhe uma pulseira de diamante afirmando que esta brilharia intensamente mal ele se acercasse do rapaz e que à vista desta, o pobre rapaz perderia a reação dando espaço para o pintor lhe colocar a pulseira, fazendo segui-lo fielmente.

-Quanto ao resto, tudo acontecerá naturalmente – respondeu a velha misteriosamente e já atarefada com a elaboração escrita do pacto.

Alexander não imaginava o quão malogrado se tornava naquele momento.



Intrigado ele pôs-se a caminho. Sentia-se, a um tempo, aliviado, esperançado e oprimido. Mas porquê oprimido? Nem ele próprio sabia explicar o que a sua voz interior lhe tentava avisar.


Chegado à aldeia, facilmente conseguiu capturar o maravilhoso rapaz e com ele rumou para o seu palácio. O jovem, de coração de ouro e alma cristalina, possuía uma rara beleza. Pele diáfana, cabelos loiros de reflexos dourados, feições suaves e doces e os olhos eram castanhos, tão claros e límpidos que quase se assemelhavam a ouro em fusão. Era alto, mas não corpulento.


Julgava Alexander que de alguma forma miraculosa os predicados do precioso rapaz passariam para si. Sentia-se poderoso e regozijava-se interiormente com o desfecho.


Contudo o que o pintor não esperava era que Nathalie, quando esta se acercou do rapaz de coração de ouro e alma cristalina, encantara-se por ele. Este parecia corresponder-lhe, tratando-a com simplicidade e dedicação. A cada dia que passava, iam-se tornando mais unidos.


Ferido pelo ciúme e raiva, Alexander congeminava em separá-los e acabou por seguir um impulso desastroso. Decidiu apunhalar vilmente o rapaz, para assim arrancar-lhe o coração e a alma e torna-los definitivamente seus. Não podia suportar aquela afronta!


Um dia avistou-se com o rapaz nos jardins e puxou de uma adaga para tentar desferir um golpe cobarde e fatal. Nesse momento o céu escureceu, trovejou, o palácio desmoronou-se, os criados desapareceram e Nathalie tombou fulminada. Ferido, o rapaz de ouro e alma cristalina bradou:


-Porque fizeste isso. Acaso julgas que uma boa alma se compra ou se rouba?

Logo a seguir fez-se ouvir um riso estridente da feiticeira.


-Incauto! Perdeste tudo e perdeste-te a ti. E porquê? Por um rabo de saia? O amor é para os tolos. – E rindo a bandeiras despregadas, a voz desapareceu.


Aterrado, Alexander balbuciou:

-Mas tu disseste que tudo aconteceria naturalmente.


Contudo foi o rapaz de coração de ouro e alma cristalina que lhe respondeu.

-Sim, e aconteceu. Ao encontrar Nathalie despertei nela o sentido do amor verdadeiro. Nathalie foi criada por ti mas não tinha um coração para amar. No entanto ela é uma parte de ti mas ao encontrar-me aconteceria a fusão com a alma cristalina e o coração de ouro. Agora que atentaste contra a vida o poder de criar já não é mais teu. – E dito isto o rapaz afastou-se, partindo para a floresta.


Alvoraçado e incrédulo, Alexander procurou tintas e pincéis nos escombros, tentando pintar. Porém, após o raiar de um novo dia, nada se transformou.


Agora estava sem dom, sem amor, sem tecto, sem bens, se casa, sem nada.


O jovem pintor vagueou chorando e soluçando dias a fio as suas mágoas e penas. Só queria morrer e após caminhar exaustivamente, deixou-se cair no solo, onde mergulhou num estado febril. Prdeu a noção do tempo.


Assim permaneceu, definhando. Não procurou ajuda, mas também não o podia pois encontrava-se demasiado fraco.


Ali perto ouvia-se rumorejar das águas de um rio, as folhas das árvores dançavam ao sabor do vento produzindo um som fresco; alguns pássaros trinavam nas redondezas.


Por entre os seus olhos enevoados, Alexander julgou vislumbrar umuma silhueta masculina; assemelhava-se a o rapaz de ouro e alma cristalina, contudo parecia rodeá-lo uma auréola luminosa. O rapaz ajudou-o dedicadamente naquele momento de fraqueza e debilidade. Permaneceu o tempo necessário e para além da sua convalescença. Por fim o pintor já se encontrava restabelecido. Durante aquele período de tempo pouco haviam falado, mas a atmosfera entre os dois sempre fora leve e calmante. Porém Alexander pensara muito na sua vida e resolvera partir em peregrinação. Como que lhe lendo os pensamentos, o rapaz perguntou:


- Acaso desejas fugir de ti mesmo?


O jovem de cabelos negros olhou-o perplexo por uns momentos.


-Preciso pensar, encontrar-me. Porque estou vivo?... Qual o meu lugar aqui?... Porque nasci? Eu só queria…


As palavras morreram-lhe na garganta. Engoliu em seco.


- E Natalie?... – perguntou o rapaz suavemente.


- Natahalie está perdida para sempre! – Os seus olhos negros encheram-se de lágrimas - Ela já não está mais entre nós e a culpa é minha! Nathalie está perdida para mim. Não a mereço. Mas também não consigo viver com esta dor. De ora em diante viverei só para expiar as minhas culpas e longe daqui.


E virando-se lentamente para o companheiro, acrescentou:- Apesar de eu não merecer, sei que és especial e podes ajudar-me a concretizar esta minha decisão…


- Alimentares mágoas e culpas não te vai trazer paz interior, nem é o melhor caminho. Contudo respeito a tua decisão. A partir de hoje correrás mundo levando contigo o coração de ouro. Nathalie não está perdida e o Poder Maior conceder-lhe-á a Alma Cristalina e voltará a viver. Nada mais te posso dizer sobre ela. A não ser que consigas fazer a Verdadeira Reunião.

Tal como previsto o ex-pintor correu mundo. Durante anos percorreu países onde a neve era uma constante e outros onde o estio se perlongava; palmilhou montes, montanhas e vales, planícies e planaltos; atravessou rios, lagos, mares e oceanos; conheceu bosques, florestas e desertos.


Ao longo dos tempos conheceu também pessoas de todos os géneros e raças e culturas, sempre sentindo o seu coração de ouro agir como um magneto nesses encontros. Ao início isto parecera-lhe estranho pois ele sempre fora adverso à convivência, mas com o passar dos anos e das aprendizagens, sentia-se unificado com este.


Havendo decorrido 20 anos, Alexander estabelecera-se há cinco anos no Oriente, num Oásis com uma povoação considerável, alojada. Tornara-se vendedor de tecidos e trajava-se como os demais. Apesar do seu ofício, muitas pessoas vinham pedir-lhe conselhos e ouvi-lo falar. A sua fama espalhou-se por terras longínquas. Forasteiros vinham ouvi-lo falar e pedir orientações.


Um dia ouviu-se falar de uma peregrina que teria o dom de curar as pessoas.


Essa peregrina acabou por ocupar lugar como sacerdotisa num tempo na periferia do Oásis. Porém a mesma não era bem vista pela comunidade que murmurava entre si se ela seria realmente uma curandeira ou na verdade uma maga. Dizia-se que os pacientes que a visitavam voltavam fascinados, principalmente os homens.



Isto causou burburinho entre o povo, especialmente nas mulheres e mães de família. Os falatórios rápido subiram de tom. Alexander tentava acalmar o povo que se reunia em ajuntamentos no mercado local. Não conhecia a dita mulher contudo sentia-se no dever de trazer a harmonia e o bom senso à população. Porém desta vez ninguém deu-lhe ouvidos. As desavenças multiplicavam-se em tom crescente até que num dia em que o sol brilhava numa intensidade chamejante, o tumulto aconteceu. Homens viraram-se contra mulheres, famílias discutiam, amigos defrontavam-se, até o caos se instalar definitivamente no mercado. Alexander assistia a tudo estarrecido Os confrontos tornaram-se de tal forma incontroláveis que fizeram deflagrar um incêndio que se propagou por todo o Oásis!


Em pânico centenas de pessoas fugiam para o deserto, tentando salvar haveres e outros conterrâneos. O terror gerado pela violência das labaredas, causara um efeito de choque, levando todos os habitantes à atitude de união. Alexander certificou-se que todos saiam a salvo.


De repente lembrou-se da peregrina. Estaria ainda no Templo já tomado pelas chamas? Correu para lá, cruzando-se com o último grupo de pessoas em fuga. Um dos membros desse grupo, um mendigo, ao vê-lo dirigir-se para o Templo exclamou:

-Vais salvar a mulher de Alma Cristalina? Então tens de correr como o vento. – Alexander esbugalhou os olhos ao som destas palavras.

Seria possível?...


No interior do Tempol, já deserto, encontrou Nathalie desanimada, pegou nela e correu lesto dali. Já fora do alcance das labaredas estacou esbaforido, ansiando que ela acordasse, insuflando ar para os seus pulmões e ela aos poucos voltou a si.


Felizes pelo reencontro conduziram o povo pelo deserto onde a certa altura depararam-se com o rapaz de coração de ouro e alma cristalina.

-Sou um Anjo. – Revelou este – E venho conduzir-vos para a Nova Terra.


Todos exultaram e enquanto o anjo estendeu uma tela, pincéis e uma palete a Alexander, dizendo a este para pintar.


Então o pintor criou uma belíssima cidade como um arco-íris, cuja entrada era uma gruta. Tudo apareceu imediatamente ali no Deserto.


Extasiados e felizes todos festejaram, enquanto Alexander e Nathalie agradeciam ao anjo. Este presenteou-os com uma bola de luz e sorrindo disse:

-Agora sim, está efectuada a fusão do coração de ouro e da alma cristalina porque vocês se reencontraram e estão prontos para se unirem como casal nesta cidade paradisíaca. – E dito isto voou para longe enquanto o casal lhe acenava de mãos dadas.


FIM

Autoria de Florbela de Castro

2011

Autoria das imagens: Heise Jin Yao e Yang Fan respectivamente. 


http://artlira.blogspot.pt/2011/11/o-pintor-de-quadros-2-e-ultima-parte.html 

Pode compartilhar livremente a obra desde que respeite os creditos. Copyright - todos os direitos reservados.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poema a Portugal - Johanna Samna


 Recebido intuitivamente por Johanna Samna



Amado Portugal


Lar de lutas e conquistas


Imploro-te que não baixes os braços


E que nunca, nunca desistas



De erguer, elevada aos céus,


A espada que é tua por direito,


E que urge, ardente, inflamada


Pelo fogo que arde no peito



Despertemos, irmãos de luta,


Cavaleiros de Coração Sagrado,


Gritemos pelos nossos Dragões,


Reconquistemos o nosso Portugal honrado!





Autor da imagem: Jonathon Earl Bowser
Artwork © Jonathon Earl Bowser - www.JonathonArt.com





Site dessa imagem
vi.sualize.us

sexta-feira, 15 de julho de 2011

"Desde que Chegaste ao Mundo do Ser.." - Rumi


Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?
Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Rumi 

Autoria da imagem: Jonathan Earl Bowser
http://www.jonathonart.com/lotu.html
Artwork © Jonathon Earl Bowser - www.JonathonArt.com

"From the Beginning of My Life..." - Rumi










"Desde o início da minha vida,

Eu tenho olhado para o seu rosto.

Mas hoje, eu vislumbrei.

Hoje, eu vi o charme, a beleza,

a graça insondável

do rosto que eu estava procurando.

Hoje, eu encontrei você.

E aqueles que riram e me desprezaram ontem

Arrependem-se de não estar olhando como eu estava.

Estou perplexa com a grandiosidade de sua beleza

e gostaria de vê-lo com cem olhos.

Meu coração queimou com paixão,

e tem procurado sempre,

para esta beleza maravilhosa que eu agora contemplo

Estou envergonhado de chamar esse amor humano,

E medo de Deus chamá-lo divino.

Sua respiração fragrante, como a brisa da manhã,

Chegou à quietude do jardim.

Você respirou a vida nova em mim.

Tornei-me seu sol e, também, a sua sombra.

Minha alma está gritando em êxtase.

Cada fibra do meu ser é apaixonada por você.

O seu brilho acendeu um fogo em meu coração,

e você fez radiante para mim a terra eo céu.

Minha flecha do amor chegou ao alvo.

Estou na casa da misericórdia.

E meu coração é um lugar de oração ".


"From the beginning of my life,
I have been looking for your face.
But today,I have seen it.
Today, I’ve seen the charm, the beauty,
the unfathomable grace
of the face that I was looking for.
Today, I have found you.
And those who laughed and scorned me yesterday
are sorry that they were not looking as I did.
I am bewildered by the magnificence of your beauty
and wish to see you with a hundred eyes.
My heart has burned with passion,
 and has searched forever,
for this wondrous beauty that I now behold.
I am shamed to call this love human,
And afraid of God to call it divine.
Your fragrant breath, like the morning breeze,
Has come to the stillness of the garden.
You have breathed new life into me.
I have become your sunshine and also, your shadow.
My soul is screaming in ecstasy.
Every fiber of my being is in love with you.
Your effulgence has lit a fire in my heart,
and you have made radiant for me the earth and sky.
My arrow of love has arrived at the target.
I am in the house of mercy.
And my heart is a place of prayer."

- Rumi

1ª Imagem da autoria de Jonathan Earl Bowser
http://www.jonathonart.com/lwind.html

Artwork © Jonathon Earl Bowser - www.JonathonArt.com

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Poema para Astronautas - André Louro de Almeida



PRIMEIROS PASSOS .............. O Topo do Mundo

ÉTER VIOLETA ..........................​.......... Radiancia .... Hidrogénio

RADIOACTIVE SELF .................... Seres Elipticos .... Tungsténio

CAMPOS DE HARMONIA .......... Iridescência - jardins de cobalto

ARCANJO 9 ..................... perigo de desmaterialização.

A OFERTA DE SI ............... SKIMNIK ................. A linguagem ardente

PAZ PROFUNDA ............ Sendas do Novo Ser .............. As rosas lentas

CONTACTO COM CERIMÓNIAS SUBLIMES ..........O Despertar da Matéria 

A CHAMA FRIA - O Fogo Frio ..........................​... A exacta proporção

VOX AETERNA ..........................​............. A gratidão universal

Tu DIZES 3,14159265 .............. Eu canto os grandes nomes esquecidos 

O PORTAL DA SUPREMA REVERENCIA ... O Triangulo Maior . A Casa dos Pássaros

CÁPSULA PROTECTORA ................ O despertar das Campanulas

O PODER DO VAZIO ..........................​.................... O novo Signo

A PROGRESSÃO ÍGNEA ...................... Praia Cósmica ....... Crianças negras emergem da água turquesa.

UM TRIANGULO (Logos, Eu, Flutuação) ..................... Sob o olhar dos Pais-Sempre tu abres o lugar secreto.


AXIALIZAÇÂO .... Orion ............. mostrei-te um lugar de plantas desconhecidas 

O MANTRA ..........................​....................... AXIS ONTHAR URUVINTEA

OS DIAS GEOMETRICOS - Lentes do Cosmos - Dançamos como bambis de laser na tarde opalina

SINAIS - o coração do Sol - Fala comigo

IRÍDIO - Radiancia - o despertar da matéria......... os teus olhos... um mês de pesquisa... apenas olhar dentro deles....

MERGULHANDO NOS ÁTOMOS - O despertar da matéria

O TEMPLO - a cidade estrela .................. gerações futuras cantam nos meus pulmões

Vem Criança de cerâmica viva... A NOOSFERA DE MIZ TLI TLAN - a cidade estrela


BRISAS DE INFORMAÇÃO ESTRELAR ........................HU​MANIDADE 

SOBREVOANDO - Neo - Geo - Geo - Neo - Neo - Geo - Neo - Geo

BRISAS - os dias exactos ............... vi-te na varanda, como um astronauta de vidro incandescente

AS VIDAS DO ESPAÇO SUPERIOR - Oceano cósmico ........ Argon 

Falaste a lingua do espaço, acenaste com a elegancia de um número lógico.

VISLUMBRES DE UMA ARTE ENIGMÁTICA - Memória do futuro ...... 

OS CAMPOS ESTRELARES ......... amo-te ......... matemáticamente 


NO CORAÇÃO DA TERRA O CONCLAVE - a cidade estrela

A CAMARA - PAX a missão oculta da Terra

SENTIMENTOS CÓSMICOS ARQUETÍPICOS - Vox AEterna .... esculturas-paraíso na retina ígnea do Grande Flutuador

SILENCIO-ESFERA - O fogo frio - clareiras de bambus azuis. Um país na minha mente .......... devagar......... longe.......... o dia exacto

O SEGREDO DO INFINITO COLAPSA DENTRO DE MIM - O Coração do Sol

Tu dizes 3,14159265 .......... Arcanjo exacto, fogo frio, coração de Quasar. 


Andre 2011



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anjodeluz.com.br